A violência policial no Nordeste cresce em ritmo alarmante. A região registrou a maior taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) do país: 33,8 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. O índice é 155% superior ao da Região Sudeste.
Por trás de cada número, existem vidas interrompidas e famílias devastadas. Especialistas destacam que não se trata de uma guerra contra o crime, mas de um padrão que atinge principalmente homens negros, jovens e moradores de periferias. Dudu Ribeiro, diretor executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas — entidade que integra o Fórum Popular de Segurança Pública na Bahia — afirma que a chamada guerra às drogas é, na verdade, uma guerra contra comunidades e pessoas negras. Para ele, o racismo no país sustenta a ideia de que a morte possa ser usada como política de Estado, sobretudo contra a população negra.
A Bahia aparece como o segundo estado com mais MVI e também com a segunda maior taxa de letalidade policial do país. São 10,5 homicídios cometidos por policiais a cada 100 mil habitantes. Em números absolutos, o estado lidera o ranking nacional, concentrando mais de 26% de todas as mortes por intervenção policial no Brasil.
Em Sergipe, no município de Itabaiana, a polícia é responsável por 75,6% das mortes registradas. Outros estados da região como Piauí, Ceará, Alagoas e Rio Grande do Norte também registraram aumento da letalidade policial entre 2023 e 2024, com crescimento de 38,5% na proporção de mortes provocadas por agentes de segurança em apenas um ano.
Os dados levantam questionamentos sobre o papel e o modelo de segurança pública no país. O caráter militarizado das polícias, herdado da ditadura, segue em debate. Como destaca o site Memórias da Ditadura:
“No período da ditadura militar, a PM ficou responsável tanto pela repressão política, relacionada ao regime ditatorial, como pela repressão da criminalidade urbana a partir da vigilância das ruas. A entrada da PM no policiamento ostensivo nos anos 1970 marcou a segurança pública brasileira, pois coincidiu com o início do crescimento da letalidade policial.”
A persistência desse modelo ao longo das décadas sugere que a alta letalidade não é fruto do acaso, mas de uma decisão política e institucional.
A militarização também traz consequências dentro das corporações. Em 2024, mais policiais morreram por suicídio do que em confrontos, evidenciando um ciclo de violência que impacta tanto a população quanto os próprios profissionais da segurança.
Diante desse cenário, o FPSPNE aponta para a necessidade de novos modelos de segurança pública, baseados em diálogo, prevenção e valorização da vida. Conheça nossas propostas:
- Estimular o alcance de metas de redução de violência letal e policial;
- Qualificar a formação continuada em direitos humanos dos/as profissionais dos serviços diversos da área de Segurança Pública;
- Criar observatórios transparentes para coletar dados sobre violência, com foco em raça, etnia, sexo, gênero, orientação sexual, idade e status socioeconômico.
- Promover a valorização do trabalho policial, garantindo proteção, direitos e condições de trabalho adequadas, com foco no fortalecimento da saúde física e mental;
- Fomentar a produção cidadã de dados sobre violência, com foco em abordagens policiais abusivas;
- Ampliar o uso de tecnologias de controle social das ações policiais, como câmeras corporais e em viaturas.

